sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Christopher Ward C3 Grand Tourer

A par da germânica Steinhart, a marca britânica Christopher Ward sempre foi uma das minhas representantes favoritas de uma nova vaga de marcas com propostas de alta qualidade e preço razoável, em parte conseguido à custa de um modelo de negócio de venda direta através da Internet.

Infelizmente, como já por diversas vezes referi a propósito da CW, neste caso os preços têm vindo a aumentar à medida a que a marca tem ganho prestígio – um pecado que a Steinhart, até agora, tem evitado.

Não quero com isto dizer que todos os modelos britânicos tenham deixado de ter um preço interessante, mas que isso acontece em muitos deles é algo que uma visita ao site da marca pode confirmar cabalmente.

Felizmente, ainda há algumas peças interessantes – embora não necessariamente baratas. É o caso deste belíssimo cronógrafo de inspiração vintage, o C3 Grand Tourer, com um mostrador cujo desenho a marca garante ter sido inspirada nos instrumentos dos Aston Martin dos anos 60.

 O relógio é, de facto, muito bonito, com uma caixa cujo diâmetro de 39mm começa a surgir com frequência e que de certa forma indica que há, pelo menos aparentemente, um retrocesso face aos exageros dos últimos anos em termos de tamanho do mostrador.

Este modelo é perfeito para entrarmos com o pé direito em 2020 porque, na realidade, ainda não está disponível – a marca indica a possibilidade de pré-encomenda em janeiro para a maioria das diferentes referências, criadas a partir da conjugação de três cores de mostrador (verde, azul e bege) com braceletes em aço (malha milanesa) e pele de cor preta ou castanha.

O movimento usado é de quartzo, o suíço Ronda 5021.D, e a execução é do habitual nível (elevado) da CW, com vidro de safira numa caixa que a marca apelida de "light catcher" e que incorpora uma tampa em aço com baixo relevo e poussoirs para o controlo das funções cronográficas em forma de pistão.

O desenho do mostrador é bastante equilibrado, com os dois sub-mostradores do cronógrafo colocados nas posições das 3 e 9 horas (em vez das posições de referência do movimento, mais habituais, às 12 e 6 horas) equilibrados com a janela de data às 6 horas. Os numerais, ponteiros e índices têm todos tratamento luminescente.

O mostrador tem ainda duas escalas adicionais: uma de minutos/segundos para uma melhor leitura de tempos intermédios através do cronógrafo; e uma escala taquimétrica, interna, no extremo da circunferência.

O preço para tudo isto é de 495€ (600€ para as versões com bracelete em aço), com portes grátis para todo o mundo. Como disse no início, não é barato, mas é o que acontece quando a nossa marca ganha valor e esse valor é valorizado pelo cliente...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Steinhart Nav.B-Chrono 47 Baumuster B Grey Edition


Não é frequente mas, de vez em quando, surge um relógio que me faz parar e olhar com atenção – e, depois, ficar a pensar que o próximo passo seria tê-lo no meu pulso! Este novo modelo da marca alemã Steinhart, de que tanto tenho falado desde os primeiros momentos deste blog, é um destes relógios.

O Steinhart Nav.B-Chrono 47 Baumuster B Grey Edition começa por estar no topo do que considero ser "B3" (a regras deste blog definem os 1000€ como teto máximo), uma vez que custa uns substanciais 990€. No entanto, justifica este valor pelo facto de ser baseado no (já de si caro) movimento cronógrafo ETA Valjoux 7750, aqui numa execução premium e ainda melhorada com o tradicional acabamento da marca, nomeadamente um rotor dourado com o logótipo da Steinhart.

Mas o que realmente distingue esta máquina do enorme mar de cronógrafos baseados no Valjoux 7750 que podemos encontrar por aí é a originalidade do desenho e a forma como o mecanismo foi implementado.

Se olharem com atenção, o que mais sobressai é o mostrador tipo "B", em que os principais numerais da escala são os dos minutos/segundos – aqui graduados de 5 a 55 – e que é uma implementação típica nos relógios ditos de "navegador" (e não de "piloto", como muitas vezes lhes chamamos) que tiveram origem na Segunda Guerra Mundial e eram usados pelas tripulações dos bombardeiros alemães.

De forma a ir ao encontro do desenho original mas sem desperdiçar as complicações oferecidas pelo 7750, a Steinhart tomou algumas decisões interessantes, nomeadamente usar apenas os sub-mostradores correspondentes à funcionalidade de cronógrafo (às 6 e 12 horas) e dispensar o mostrador de pequenos segundos que esta máquina costuma oferecer às 9 horas.

Outra simplificação passa pela utilização apenas do disco do dia do mês (aqui, às 6 horas), quando este é um movimento que inclui também um disco de dia da semana, ambos tradicionalmente visíveis na posição das 3 horas.

Mas a originalidade do desenho da Steinhart não se fica por aqui. Seguindo as diretivas dos desenhos de mostrador "Tipo B", o relógio inclui uma escala concêntrica para as horas, cuja leitura é facilitada pelo ponteiro respetivo, encurtado de forma a apontar corretamente para as posições horárias. O desenho inclui ainda escala taquimétrica inscrita internamente, em torno do mostrador.

A caixa é pouco grande para o meu pulso (47mm), mas o resultado é francamente bom, com uma execução de elevado nível que inclui vidro de safira e uma caixa em aço de cor cinza particularmente bonita. Nota final para a coroa com cortes diagonais de belo efeito e poussoir de arranque do cronógrafo em vermelho.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Preço vs. Valor: o que é afinal “bom, bonito e barato”?

IWC vs Steinhart
No mundo da alta fidelidade utiliza-se frequentemente um termo para designar um fenómeno que pode igualmente ser usado noutros mundos, como o dos automóveis ou o da relojoaria: “The Law of the Diminshing Returns”.

A ideia (aplicada neste contexto) é simples: a partir de um certo ponto, o custo de acrescentar apenas valor incremental a um produto, encarece esse mesmo produto de forma exponencial.

Na alta fidelidade isso significa que podemos obter um bom gira-discos por 500 euros mas, se quisermos ir mais além na escala da qualidade, teremos de gastar várias vezes mais esse valor. Ou seja, se considerarmos que 500 euros compra um equipamento capaz de uma qualidade de reprodução de 75% do total possível, teremos de gastar muito (mas mesmo muito) mais para conseguir os restantes 25% – é fácil gastar algumas dezenas, ou até centenas, de milhar de euros num gira-discos…

Para algumas pessoas, o custo desses restantes 25% compensam os resultados. Para outras, o contrário não podia ser mais verdadeiro. O mesmo raciocínio pode ser encontrado no mundo automóvel. Um Bugatti Veyron de 1,5 milhões de euros vale 10 vezes mais do que um Nissan GT-R de 150.000 euros? E este vale 10 vezes mais do que um Nissan Micra de 15.000 euros? Uma vez mais, depende de quem responde à pergunta.

O que nos leva ao mundo dos relógios. Tenho amigos com IWC e Breitling de milhares de euros no pulso, e outros que acham que os menos de 300 euros que paguei por um Seiko automático é várias vezes superior ao que consideram ser razoável dar por um relógio – e até mesmo os que dizem que não usam relógios porque o telemóvel serve perfeitamente.

Claro que há inúmeros factores que encarecem um relógio. Se a caixa é de platina e diamantes, o movimento até pode ser de quartzo, que o resultado nunca será barato. E numa caixa de aço, um movimento mecânico que demora um ano a montar por um artífice especializado terá sempre de custar muito dinheiro.

Para mim, já é mais difícil (mas não impossível, reconheço) justificar valor quando se usam movimentos idênticos (mas não iguais) em relógios com preços díspares, como o exemplo na foto que ilustra este artigo: em ambos os casos é usado um Valjoux 7750 (em rigor, no caso do IWC é o Calibre 79350, mas é muito baseado no ETA 7750). Edit: a referência da IWC na imagem já não existe e o Steinhart só está agora disponível com caixa em PVD preto e custa 900€  mas vocês perceberam a ideia, certo?

Tudo isto começou por causa de um interessante artigo que li aqui e que discute precisamente o valor e o preço dos relógios. A conclusão é que esses são conceitos que variam consoante as pessoas, algo com que naturalmente concordo. O que para mim é “bom, bonito e barato” para outros é ridiculamente caro ou, pelo contrário, demasiado barato para ser levado a sério.

E para si? O que é “B3”?

(este artigo foi originalmente publicado neste blog em 2 de fevereiro de 2013 e foi reeditado com links novos e mais informação sobre o calibre IWC 79350).