sexta-feira, 10 de abril de 2015

Junkers 6218-2 Tante Ju Series


Teria uns 8 ou 9 anos quando o meu pai me ofereceu o meu primeiro relógio – um Timex mecânico. Andava com ele para todo o lado e acabei por o destruir quando o levei para a praia e, acidentalmente (a sério), levei com uma onda em cima e o pobre do relógio começou a ganhar humidade por dentro do vidro do mostrador, até que deixou de funcionar.

O segundo e último relógio que recebi era igualmente mecânico, mas já não me deixou uma impressão tão duradoura. Nem me lembro da marca. Mas sei que era pouco preciso, do género de adiantar (ou seria atrasar?) vários minutos por dia.

Lembro-me também de quando vi o primeiro relógio de quartzo. Foi em meados dos anos 70, no pulso de um amigo meu. Estávamos nos primórdios da tecnologia e os ecrãs LCD ainda não tinham chegado – nem as relógios, nem às calculadoras. Os ecrãs funcionavam com LEDs e consumiam bastante energia (as pilhas da altura também não seriam grande coisa...), pelo que a solução passava por estarem sempre apagados; para vermos as horas, pressionávamos um botão que, durante breves momentos, exibia a hora.

Na verdade, sempre gostei de relógios desde que me lembro, mas a maioria dos que adquiri enquanto adulto foram sempre de quartzo – digitais e analógicos. Foi só muito recentemente que voltei a adquirir o gosto pela relojoaria mecânica mas, quando isso aconteceu, descobri que tinha gostos caros: de forma recorrente, passei a cobiçar máquinas que tinham uma coisa em comum: o movimento cronógrafo automático ETA 7750, a.k.a. "Valjoux", com dia e data às 3h00.

Uma enorme percentagem dos cronógrafos mecânicos do mercado são efetivamente baseados neste movimento (ou no seu clone suíço, o Sellita SW400), mas não é fácil encontrar modelos abaixo dos 1.000 euros. E, quando isso acontece, é porque estamos na presença de marcas de menor prestígio e/ou de execuções de menor qualidade.

Ora dar um milhar de euros por um relógio de pulso não é propriamente algo que alguém como eu faça com ligeireza... Afinal, por alguma razão criei um blog cujo tema são "relógios Bons, Bonitos e Baratos"! No entanto, um conjunto irrepetível de circunstâncias permitiu-me, no final do ano passado, adquirir um Junkers 6218-2 (na foto).

Trata-se de um relógio que é ainda possível comprar online por valores entre €900 e €1.200 mas que já foi entretanto substituído por um outro modelo da marca, o Junkers 6818-2, muito semelhante à primeira vista mas com algumas diferenças subtis.

Um 7750 no dia-a-dia


Inicialmente, tinha várias dúvidas sobre a utilização diária do Junkers 6218-2. Isto porque um dos relógios que costumava usar com mais frequência era um cronógrafo de quartzo Tissot PRC200 (igualzinho a este). É um relógio com caixa de 40mm e sempre me habituei a considerar esta dimensão como o máximo que o pulso relativamente pequeno "suportaria". E este Junkers tem 42 mm de diâmetro (dimensão comum entre os relógios com o ETA 7750). Mais dúvidas: a caixa não seria muito alta? E o peso do relógio não seria demasiado grande para uma utilização diária constante?

Felizmente, a resposta a todas estas dúvidas foi a de um rotundo "não"; este é um relógio que me habituei a usar em praticamente qualquer circunstância, mesmo depois das primeiras semanas em que não nos cansamos de olhar para o pulso e admirar a nossa nova aquisição. As dimensões parecem-me perfeitas (42mm passou a ser o novo "máximo" para mim – até que descubra que posso ir mais além, claro!) e o relógio não é demasiado pesado, apesar das minhas reservas em contrário.

Outra coisa que me agrada neste relógio é que não é apenas "mais um" ETA 7750. Esteticamente, é um relógio interessante, a começar logo pelo mostrador. A série Tante Ju vai buscar inspiração diretamente à fuselagem dos aviões Junkers JU52, que usavam chapas em alumínio ondulado: o mostrador dos relógios da série utiliza o mesmo padrão (não é apenas ilusão de ótica, existe efetivamente uma ondulação!), o que lhes dá um "look" muito característico.

O desenho do mostrador é também bastante feliz, com alguns pormenores que, para mim, fazem toda a diferença, como é o caso de terem sido mantidos todos os numerais, mesmo os das posições 12, 3, 6 e 9, que em muitos casos desaparecem para dar lugar à janela de data e aos sub-mostradores.

A execução do relógio é toda de elevado nível. O mostrador está perfeitamente alinhado com os ponteiros (ficarão surpreendidos ao descobrir a quantidade de vezes que isto não sucede, mesmo em relógios muito mais caros) e a escolha da coroa parece-me particularmente boa, tendo a marca optado por dotar este modelo de uma coroa de grande diâmetro e espessura reduzida, que além de bonita é muito confortável de usar (não "morde" o pulso em utilização normal).

Ainda uma nota para o mostrador: a aplicação de material luminescente (Superluminova) nos numerais e ponteiros permitem uma perfeita visibilidade à noite, de tal forma que é ao Junkers que recorro durante a noite para ver as horas, sem ter de acender a luz no quarto.

O vidro, de safira, é montado à face do mostrador, perfeitamente alinhado com o bisel. A marca usou um fundo em vidro para observação do movimento. Este será talvez o aspeto menos feliz da execução e a minha única crítica a todo o relógio: a Junkers limitou-se a gravar o seu nome no rotor, o qual não possui qualquer tipo de decoração. Mas, por este preço, havia que cortar custos nalgum lado...

Este modelo em particular é vendido com uma pulseira de pele com uma fivela simples (outra concessão ao preço), mas existe também a possibilidade de encomendar uma bracelete em aço, algo que provavelmente farei no futuro, até porque transforma totalmente o relógio.

As primeiras semanas de utilização do relógio revelaram que adiantava bastante mas, passado algum tempo, e antes que eu tivesse a oportunidade de pedir a sua regulação, o movimento estabilizou e mantém uma precisão que é o espectável para um relógio mecânico automático.

O único problema que sinto agora é que o Junkers 6218-2 me "estragou" para outros relógios: sempre que lhe dou um pouco de descanso e coloco no pulso outro relógio, fico sempre a achar que falta ali qualquer coisa. Mas é claro que esta não é uma máquina para todas as ocasiões – com uma resistência à água de apenas 5 atmosferas, não é algo que eu levaria para a praia ou acampar e não é certamente a peça certa para um evento social mais formal (não que eu vá a muitos!).

Mas, ao contrário do que sucedeu com uma outra compra que fiz, não só correspondeu em absoluto às expetativas como as ultrapassou. Agora, é começar a pensar na próxima aquisição.

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Nota: a foto que ilustra este post não é do meu relógio, mas sim de um igual, que encontrei aqui, onde também podem ser observadas muitas mais imagens. Há duas diferenças entre o relógio dessas imagens e o meu: a inscrição "Junkers" no rotor e o facto de a data no meu estar em inglês e não em alemão.

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