quarta-feira, 25 de março de 2015

Swatch Sistem Black review

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Os meus leitores já perceberam que gosto muito de relógios mas que a maioria dos meus artigos são na verdade apreciações subjetivas de peças que, vistas à distância de uma montra ou de uma página Web, me parecem interessantes.

De vez em quando, faço um teste, mas é raro. Primeiro, porque a minha coleção de relógios e limitada (e quando faço um teste é a partir da experiência de utilização de um dado modelo que possuo) e depois porque o tempo também não abunda – é mais fácil e rápido fazer um dos artigos habituais sempre que tropeço num relógio que me agrada do que um artigo mais aprofundado sobre uma experiência de utilização.

Este caso é uma exceção porque tive acesso a este relógio em particular – a minha filha comprou-o há uns meses – e porque senti, depois de o poder observar mais de perto e mexer efetivamente nele, que este é um daquele casos que vale a pena chamar os bois pelos nomes, evitando que os meus leitores gastem dinheiro em algo que não é o que parece.

Mas primeiro, um pouco de história. Lembro-me do primeiro Swatch mecânico até porque na altura pensei em comprar um: foi em 1992, a propósito da cimeira do Rio de Janeiro. Chamava-se, apropriadamente, Time to Move (referência SAK 102) e vinha equipado com um movimento ETA 2842, criado especificamente para ser barato de produzir, de forma a poder ser integrado em relógios de baixo preço.

O gesto da Swatch foi simbólico e significativo. Uma marca conhecida pelos seus relógios de quartzo – tecnologia que obriga à utilização de uma pilha – aproveitava um importante fórum mundial para juntar a sua voz às dos que pediam mudanças na forma de ver o mundo de uma forma sustentável com um relógio que usava um (ecológico) movimento mecânico automático.

Seria no entanto necessário esperar até 1997 para que a Swatch oferecesse uma gama completa de relógios baseados em movimentos mecânicos automáticos. Até há bem pouco tempo, esta era uma poucas formas de podermos ter um relógio mecânico suíço – com caixa em aço! – por cerca de 150 euros, como de resto salientei num artigo anterior.

O Sistem 51


Mas se o movimento de quartzo criado para os Swatch originais foi pensado de raiz para este relógio (um movimento produzido industrialmente e em massa, na Suíça, com poucas peças móveis, mas barato e fiável), o ETA dentro dos seus modelos automáticos nunca foi mais do que uma simplificação de um movimento já existente no sentido de o embaratecer o suficiente para que pudesse dar origem a modelos com “preços Swatch”.

Ao apresentar na feira de Basileia, em 2013, o Sistem 51, a Swatch desvendou um projeto em tudo similar ao que deu origem aos primeiros relógios da marca: um movimento – desta vez, automático – concebido de raiz a pensar na poupança de custos de produção mas capaz, pelo menos teoricamente, de se bater de igual com movimentos automáticos muito mais caros.

Tal como o movimento de quartzo criado pela Swatch nos anos 80, também este movimento (referência ETA C10111) foi pensado para ser totalmente produzido e montado de forma automática, sem intervenção humana, a única maneira de garantir um baixo preço de venda ao público.

Além disso, a marca conseguiu ainda o bónus de oferecer uma reserva de marcha de 90 horas – cerca do dobro dos movimentos automáticos tradicionais, que andam entre as 40 e as 50 horas e marginalmente superior até ao Tissot Powermatic 80!

O Swatch SUTB400


O Swatch Sistem Black pertence ao grupo de relógios do lançamento do Sistem51 que inclui ainda os modelos RED, BLUE e WHITE. De todos eles, o Black é o que constitui melhor negócio porque, apesar de ser do mesmo preço de todos os outros, é o único que tem bracelete em pele.

Mas na verdade, o preço é o primeiro sinal de alarme para este nova gama: €135 é um valor não muito distante dos relógios da gama Swatch Irony, em aço (incluindo bracelete no mesmo material), com movimento automático e mostrador de vidro. E aqui estamos a falar num relógio totalmente produzido em “plástico verdadeiro”…

Quanto ao resto. Há algumas coisas que me agradam no Sistem Black e que são comuns aos restantes membros da gama. A primeira é o tamanho do relógio: os 42mm da caixa são um pouco maiores do que é habitual na Swatch, mas isso é uma coisa boa.

Outro aspeto interessante é a forma como foi implementado o rotor que permite a manutenção da reserva de marcha, o qual consiste num círculo em material acrílico que é apenas metálico num anel exterior. O resultado é um rotor que parece flutuar como que por magia e que pode ser observado através do fundo da caixa, em plástico transparente. E, claro, temos depois a generosa reserva de marcha de 90 horas, que temos de admitir ser um verdadeiro tour de force num movimento criado para ser barato.

Infelizmente, o que me agrada no relógio fica-se por aqui. Talvez seja uma questão geracional, mas se não teria problemas em usar um Irony ou até mesmo um despretensioso Swatch de quartzo, aqui tudo me parece desproporcionado: preço demasiado elevado, plástico demasiado abundante (com a exceção, neste modelo em particular, da bracelete em pele) e um conjunto demasiado leve – gosto do peso adicional de um relógio mecânico face aos de quartzo.

Eu sei, eu sei… No final do dia é apenas um Swatch. Talvez seja um problema criado pela própria marca, cuja máquina de marketing criou – pelo menos em mim – demasiadas expectativas. Só que, até agora, o “Swiss Made” num Swatch sempre me pareceu perfeitamente adequado face a tudo aquilo que o termo pressupõe: qualidade, precisão, fiabilidade, tradição…Nada disso são valores que consigo associar a estes novos Sistem51, talvez porque uma coisa é criar um movimento de quartzo barato e fiável numa fábrica que os produz aos milhares sem intervenção humana e outra é fazer o mesmo com um movimento mecânico automático.
Especialmente quando descobrimos, pela mãos de quem sabe, que o que nos contaram sobre o supostamente “revolucionário” movimento está nos antípodas da verdade.

Em utilização corrente, a sensação não é melhor. É verdade que temos aqui possibilidade de criar reserva de marcha pela manipulação da coroa, coisa que não conseguimos em movimentos automáticos mais baratos – caso dos populares Seiko 5 – mas desengane-se quem espere paragem de segundos para facilitar o acerto. Pior, ao puxarmos a coroa sentimos que tudo se move um pouco mais do que devia, sentimos onde faz realmente falta ter sido gasto dinheiro, sentimos onde é que foram poupados os Francos Suíços…

O veredicto? Até pode ser que esta seja uma forma de trazer para a relojoaria mecânica uma nova geração de entusiastas mas pessoalmente prefiro gastar 150 euros num relógio como movimento de quartzo suíço de outra marca qualquer do que 135 euros nisto.

Aliás, é pior ainda: por este preço, prefiro um relógio com movimento automático japonês… ou até mesmo chinês: pelo menos sei que é uma imitação de um movimento suíço e que, se for preciso, até é reparável. Que é mais do que podemos dizer deste Sistem51.

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